Colunista de O Globo faz belo texto sobre título Carioca do Botafogo
Não sou homem de superstições. Afago gatos pretos, passo debaixo de escadas, entro nos campos com o pé da vez. A maioria da torcida do Botafogo, porém, é chegada a uma crendice. Por isso, a ela faço saber o seguinte: eu estava em Portugal nas decisões de nossos dois últimos títulos estaduais. Pelo sim, pelo não, na próxima, melhor a galera fazer uma vaquinha e me mandar para além-mar. Passagem econômica e hotel três estrelas sairão mais barato que salário de reserva. Aceitarei o breve exílio docemente constrangido.
Em 2006, a bem da verdade, eu estava era chegando de Lisboa na hora do segundo jogo contra o Madureira, depois de passar três semanas de férias pela Península Ibérica. Até já ouvia o rádio do táxi, a caminho de casa, quando Reinaldo marcou o terceiro gol nos 3 a 1. Contudo, o que importa é o espírito da coisa, certo, companheiro supersticioso? Afinal, eu me entupia de pataniscas de bacalhau e arroz malandrinho enquanto, dias antes, o Botafogo botava a mão na taça com os 2 a 0 do primeiro jogo contra o Tricolor Suburbano.
Agora, sucedeu-se algo diferente. Eu chegara a Portugal na véspera da decisão da Taça Rio. Ficaria longe das comemorações alvinegras. Sim, no íntimo, eu acreditava que festejaríamos o título. Não por estar distante, claro.
Zero de pensamento primitivo. Eu vibrara no Maracanã na gloriosa noite de 21 de junho de 1989. Acreditava na vitória por saber, racionalmente, que não há mal que sempre dure e por ver que o time de 2010 tinha gana de vencedor. Tinha tanta certeza que levei na mala uma bandeira do Botafogo para presentear meu bom amigo Luiz Carlos Mansur, há quase vinte anos vivendo em Cascais. Eu não estava mais de férias em Portugal.
Meu propósito era participar do encontro Literatura em Viagem, promovido em Matosinhos, cidade colada ao Porto, numa mesa com os autores portugueses José Fanha e Filomena Marona Beja. Paralelamente, lançaria o meu segundo romance, “Black music”, lá editado, como o primeiro, pela Quetzal. Enquanto não chegavam as horas H do jogo e do debate, eu comia, assistia aos outros debates, comia e contava com a solidariedade dos adeptos do Porto, como meu editor, Francisco José Viegas, e do Sporting, meu time lusitano, fartos do oba-oba da “nação benfiquista”.
Na hora da decisão carioca, domingo retrasado, com quatro horas a mais de fuso, estávamos todos jantando no Mauritânia Real, espécie de cantina do Literatura em Viagem. Eu não conseguia me concentrar nem nas conversas saborosas nem na deliciosa comida do norte de Portugal, de muito pescado. Ficava alheio, calculando se a partida já teria acabado no Maracanã. Quando concluí que sim, ela já haveria de ter acabado, mesmo no caso de ter ido aos pênaltis, comuniquei aos comensais, tentando aparentar casualidade máxima: — A essa hora, o jogo no Rio já terminou…
O Francisco passou-me imediatamente o celular: — Liga para alguém, vai.
Liguei para a Patroa, que estava de plantão no jornal.
— Ganhamos! — ela disse.
— Ganhamos? — repeti, não por descrença e sim para que o meu entendimento não fosse prejudicado ou pelo barulho ambiente ou pela ligação transatlântica.
— Ganhamos! Dois a um! Foi emocionante! Liga daqui a pouco que estou no meio de uma entrevista.
Desliguei, devolvi o celular, agradeci ao Francisco e comuniquei o resultado aos comensais, ainda tentando aparentar casualidade máxima, mas louco de vontade de subir na mesa e gritar meia-dúzia de palavrões de ordem alvinegros.
Recebi os parabéns gerais pelo campeonato por antecipação. Alguém observou que minhas feições tinham mudado. Minhas feições podem ter mudado, mas meu pensamento continuava longe. Comi mais um pouco de bacalhau, fiz algum comentário sobre alguma coisa, bebi mais um pouco de vinho verde e pedi licença, para voltar ao hotel e telefonar de novo para a Patroa, atrás de detalhes sobre o épico recém-encerrado a dez mil quilômetros de distância. Vesti o casaco e saí às ruas quase desertas e inteiramente tranquilas de Matosinhos.
Em silêncio, fui curtindo o frio, a noite, Portugal, o campeonato. A caminho do hotel, rodei na cabeça um jogo decidido, e nisso nem era necessária adivinhação, pelos aguerridos Herrera e Loco Abreu. Que baita acerto as contratações dos hermanos para o Carioca! E que outro golaço da diretoria a contratação de papai Joel Santana! Que história fantástica de superação! Ele, demitido na África do Sul e desempregado no Brasil, o time, goleado pelo Vasco… E eu nem sabia do pênalti genial do Loco, dos saltos do negro gato Jefferson…
Naquela noite, só naquela noite, eu queria me teletransportar para festejar o título no Jobi, mas faltava uma semana para retornar ao Rio. Naquela noite, eu queria gritar “Fogo! Foogo! Fooogo!”, mas em Portugal certamente seria preso por falso alarme de incêndio.
Olhei para cima e, entre as nuvens, uma única estrela se insinuava no céu de Matosinhos.
Texto de Arthur Dapieve publicado nesta sexta-feira em “O Globo”